08/02/2012

Metro, 7h15m

Jovem encostada a um muro adjacente à escada rolante descendente beneficia da luz artificial da mesma e do encosto para se envolver na sua leitura.
Mais pessoas chegam à plataforma. Imperturbável, a jovem continua no mundo para o qual a leitura a desperta, no entanto, na área que o campo de visão ao redor da página permite surge uma sombra de alguém com andar mais cansado transportado por alguém mais velho.
“Menina, vem aí uma grande mudança mundial”
A jovem continua a ler mas a senhora persistentemente sorridente com dentes gastos da vida insiste oferecendo, sem largar veementemente o panfleto que agora quase coloca na cara da jovem: “é bíblico”
“desculpe?”
“é da Bíblia”
“e?”
“ se é da Bíblia, é bom”
“Erm, se é .. “ a jovem ri-se interiormente e diz apenas sorrindo mas claramente dando sinal de que quer continuar a ler “é para quem é crente”.
A senhora mais velha continua a insistir, a jovem tenta ler e alude aos facto de que... ” A senhora chegou aqui, interrompeu a minha leitura sem sequer dizer bom dia “
“ah desculpe desculpe” (sorrindo falsamente, amarelamente, insistentemente, irritantemente)” interrompi a sua leitura pois foi, mas vem aí uma grande mudança” (jovem pensa sempre estivémos em mudança senhora mas continua  a tentar ler) “nem disse bom dia pois foi pois foi, desculpe desculpe” e continuou a lenga lenga.

A jovem, voz pausada, assertiva, em tom firme disse apenas “ A senhora está a incomodar-me, tenha um bom dia.” Perante o ar surpreendido e amarelamente sorridente da senhora mais velha a jovem repetiu ”Bom dia.”
Do outro lado da plataforma as pessoas viram uma senhora mais velha a andar rápido por entre os transeuntes com um panfleto na mão e a dizer alto “desculpe desculpe desculpe”.

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