Na luz da tarde que se espreguiça, as ruas ainda promovem o
silêncio anterior às buzinadelas do costume.
A clara languidez daquela hora premeia o olhar com novos
trilhos, novas gentes e novos detalhes.
Perto da agitada avenida, um prédio antigo desabraçou a hera
que o caraterizava.
Sim, só pode ter sido desabraçada... ela...A hera está agora
desmaiada, solta, desapoiada num tango a solo que a natureza permitiu.
Estranho efeito o da fachada meio despida, meio púdica, em estranha queda.
Estranho efeito o da fachada meio despida, meio púdica, em estranha queda.
Mais abaixo um (o?) sem abrigo idoso continua em greve de
fome, é o que alega, que não quer conviver nem ouvir conversa “mole mole para
boi dormir”, que não quer nem comer nem ouvir.
Será um querer aquele não poder? Diz que o retiro
espiritual, em físico jejum, dura desde há uns meses. O seu corpo estará a dar
um sinal que o seu cérebro diz ser outro sob outra vontade? Ali está ainda não
mal vestido, quase aparentemente desmaiado. Assim se soltando do mundo, em
estranha queda.
Para quem passa surge o dilema: respeitar o pedido ignorando
um caso iminentemente fatal ou violar a fronteira de um pedido espiritual?
Avança-se na rua, mais pedidos de esmola, mais encontrões,
mais palavrões, mais calçadões.
Estranha queda.
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