08/01/2013

Queda


Na luz da tarde que se espreguiça, as ruas ainda promovem o silêncio anterior às buzinadelas do costume.

A clara languidez daquela hora premeia o olhar com novos trilhos, novas gentes e novos detalhes.

Perto da agitada avenida, um prédio antigo desabraçou a hera que o caraterizava.

Sim, só pode ter sido desabraçada... ela...A hera está agora desmaiada, solta, desapoiada num tango a solo que a natureza permitiu.
Estranho efeito o da fachada meio despida, meio púdica, em estranha queda.

 

Mais abaixo um (o?) sem abrigo idoso continua em greve de fome, é o que alega, que não quer conviver nem ouvir conversa “mole mole para boi dormir”, que não quer nem comer nem ouvir.


Será um querer aquele não poder? Diz que o retiro espiritual, em físico jejum, dura desde há uns meses. O seu corpo estará a dar um sinal que o seu cérebro diz ser outro sob outra vontade? Ali está ainda não mal vestido, quase aparentemente desmaiado. Assim se soltando do mundo, em estranha queda.

 

Para quem passa surge o dilema: respeitar o pedido ignorando um caso iminentemente fatal ou violar a fronteira de um pedido espiritual?

 

Avança-se na rua, mais pedidos de esmola, mais encontrões, mais palavrões, mais calçadões.

Estranha queda.

 

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