02/04/2014

Elevação


Desce a rua no encalço do protesto
revê o jovem que hoje grita como gritou há uma década
mudou de roupa, o jovem que sobe
não mudou a roupa a jovem que desce
subiu no posto da sola da sapatilha mais cara, o jovem que sobe
mas da mesa mais vazia em que desce
vem ali hoje subir a rua que a escadaria não pode ser subida
a do governo que não tem educação
nas belas artes da rua que se colore de jovens indignados
desce o ritmo
sobe o ritmo
sobe e desce debaixo do Sol que ressuscitou
não se ouvem os gritos
triste é a subida da descida triste
desce a atenção
sobe a revolta
cresce a angústia do megafone
Desce a rua pelo veio da chuva que ainda se empoça algures
na poça, na racha do alcatrão, sim, a fenda, a frincha, a falha, o erro
desce a rua
sobe a rua
vira na rua
vira a rua
porque viram as gentes
sobe.
Sobe!
Sobe?
pára
respira
senta-se
sobe o elétrico que hoje está tão lindo
e mesmo estando tão lindo não se pôs o pé na rampa
sobe no elétrico meio cheio
desce no banco do elétrico meio vazio
sobre no assento ao lado dos turistas enamorados pela curiosidade da cidade, dos sons, da língua que se mastiga ao lado
sobe elétrico que está na hora diz o velho moreno lindo que há-de ter sido este homem
e são horas
e não sai e a revolta não chega por que chegam mais turistas e o negócio tem horas certas para florir
sobe na leitura da espera
desce no banco
sobe no banco para espreitar
desce a vontade de esperar
e o sol que convidava e o convite que se recusou
sobe então maquinista
motoristas para outros
sobe o elétrico enfim
começam os suspiros
é espanto que esta urbe causa
não da rua suja ou esquecida pelos seus donos
mas da sua luz que se esconde na esquina que se virou
e de repente do taxista que passou na esgalha em sentido contrário
explique lá o que é esgalha senhor maquinista-motorista que eles não perceberam como passou entre nós
aquele fogareiro
sobe a rua jovem que está a ir tão bem
a chegar tão depressa numa valsa tão lenta de encanto e  de surpresa
e o velhote acalmou e tem uns olhos que agora brilham
e ainda há pouco tossia o tabaco todo de uma toda vida
acenou a uma janela
era uma velhinha que via a vida para além do parapeito
e o velhote sorriu
"Ah esta velhinha! Olá! Como está?"
Não veio resposta imediata e ainda bem que o taxista quase nos matou
o elétrico parou e o homem acrescentou
"já não se lembra de mim, pois é natural..."
E a velhinha começou a sorrir agora que olhou bem o homem
e o homem relembrou, ou para ele ou para ela "eu costumava cantar fados ali em baixo" e aponta para o local
e a senhora sorri e gesticula um reconhecimento e "está tudo bem?" diz a mão cansada do reumático "ah estas casas, devem estar todas velhinhas" pensa ele alto
as mulheres que ele terá encantado no embalo do fado que desce na alma
e o homem sorriu para a jovem que deixou de ler para escrever na mente
a subir a rua no elétrico que sobe
e ela sorri e ele sorri também
e ele vira o rosto e dos seus olhos desce um brilho
é "água e cloreto de sódio"
se da tosse se da saudade líquida não sabemos
mas subimos

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