Dona Joaquina engoliu em seco, levantou
a cabeça e caminhou em direção ao altar. Olhou para os noivos e viu-os na
candura do aparato nubente com sinceros votos de felicidade.
Já não somos novos....
A amizade e a convivência de toda uma vida não lhe permitiam o ciúme que queriam que tivesse. A sua dignidade era superior às mesquinhezes de qualquer comum mortal e, para além do mais, a dor fora tão grande que já não se sentia, era já uma qualquer outra coisa transcendente.
Ultrapassava-a no andar firme, tão quebrado lá dentro. Tinha atingido uma outra esfera de dádiva e altruísmo que ninguém percebia e todos tinham pena e ela ria por dentro. Com pena deles. Ria-se em silêncio, que de outra forma não se gerava.
A felicidade concertada era para os outros.
Se eu os deixar acreditar que são felizes, serão felizes, talvez eu também.
Chegou ao elevado palanque de onde os olharia com alguma vantagem. Dali viu a sua plateia. De súbito, apercebeu-se.
Eles lembram-se.
O noivo, Júlio, quase sentiu vergonha ao olhar para ela, mas apertou a mão da noiva e sentiu-se mais seguro, sim, tinha sido a escolha certa e não podia continuar mais tempo a fazer súcia à solidão e a memórias tristes.
Tão linda, Joaquina. Tão felizes. Tão doídos.
Ele ainda tem dúvidas.
Agora que a via ali, com postura, compreendia que Joaquina estava bem, claro que estava, se assim não fosse, não estava ali, não era verdade? Ficou sossegado, só poderia ser inteiramente feliz naquele tão sagrado dia se Joaquina aprovasse e ali estivesse e ela ali estava. A mocidade há muito que tinha ido, já não havia idade para brincadeiras, era assumir e seguir.
Que amor foi aquele?
Os convidados olharam ao redor. O silêncio proporcionava a todos um arrepio na espinha e abraçava-os com um sopro gelado, o da memória dorida e incompreendida pelos mais jovens. Estes eram os filhos das principais testemunhas das intrigas e mal entendidos do passado, mal digerido ainda, via-se agora nas inconstâncias dos assentos e das tosses secas e dos olhares evasivos e disfarçados, ali a balouçar, pairante no ar que se respirava pesado.
Os vossos filhos estão aí, o meu mal nasceu...
Joaquina deixou-o pousar, o silêncio, esse amigo de sempre que a fazia compreender a vida, as pessoas e o mundo que nunca despendera paciência a percebê-la.
O nosso filho, mas eles nunca souberam.
- Vá se lá perder um bom partido como o Julinho, ó Quininha, minha filha, és osso duro de roer!
- Prefiro Jôjô, senhora minha mãe. Mas não lho contaria. Só ele lhe chamava assim, lá na roça, nos tempos do Brasil, nas cumplicidades do serviço ao Senhor da terra que os levara para lá como criados de servir.
Que descanse em paz.
Viu o seu irmão e a cunhada deste, ou amiga, ou confidente, o povo sempre desconfiou, e sorriu-lhes, por dentro.
Foram dois anos no Brasil, fora da manha do povo. E doeu tanto tê-lo nos braços, podia lá ser, nascer a dormir, não era vermelho, era roxo e afinal estava morto. Nunca, cá dentro, nos aliviámos daquela dor. Ao interior da fazenda, não chegou a tempo o médico na mula. Eles nem sonham. Nunca se escreveu uma carta para vir de barco. Vejo que ainda te dói, Júlio.
Lembrou os pais já falecidos, sorriu-lhes, por dentro, olhando para as gravuras que davam vida à abóbada daquela igreja.
Viu os irmãos ainda vivos do Julinho, virou o rosto para encontrar o ar impaciente da Mercedes da venda que ansiava por uma faca e um alguidar. Sorriu, quase riu, mas viu o Ancião do Monte, nunca me contaste o teu verdadeiro nome, amigo, e sentiu saudades por saber que ele iria morrer em breve e suspirou tranquila. Era o seu momento. Eles nunca compreenderam nem nunca compreenderão.
E, então, seguindo um impaciente esgar atento do velhinho Padre, preparou-se para a leitura.
Ele nunca soube, Dona Joaquina jamais confessaria a sua vida a um homem de “Deus”.
Que sabe ele da vida terrena para julgar simples mortais? O perdão é presunção, quis gritar-lhe ela.
Engoliu em seco. Respirou fundo e começou:
Já não somos novos....
A amizade e a convivência de toda uma vida não lhe permitiam o ciúme que queriam que tivesse. A sua dignidade era superior às mesquinhezes de qualquer comum mortal e, para além do mais, a dor fora tão grande que já não se sentia, era já uma qualquer outra coisa transcendente.
Ultrapassava-a no andar firme, tão quebrado lá dentro. Tinha atingido uma outra esfera de dádiva e altruísmo que ninguém percebia e todos tinham pena e ela ria por dentro. Com pena deles. Ria-se em silêncio, que de outra forma não se gerava.
A felicidade concertada era para os outros.
Se eu os deixar acreditar que são felizes, serão felizes, talvez eu também.
Chegou ao elevado palanque de onde os olharia com alguma vantagem. Dali viu a sua plateia. De súbito, apercebeu-se.
Eles lembram-se.
O noivo, Júlio, quase sentiu vergonha ao olhar para ela, mas apertou a mão da noiva e sentiu-se mais seguro, sim, tinha sido a escolha certa e não podia continuar mais tempo a fazer súcia à solidão e a memórias tristes.
Tão linda, Joaquina. Tão felizes. Tão doídos.
Ele ainda tem dúvidas.
Agora que a via ali, com postura, compreendia que Joaquina estava bem, claro que estava, se assim não fosse, não estava ali, não era verdade? Ficou sossegado, só poderia ser inteiramente feliz naquele tão sagrado dia se Joaquina aprovasse e ali estivesse e ela ali estava. A mocidade há muito que tinha ido, já não havia idade para brincadeiras, era assumir e seguir.
Que amor foi aquele?
Os convidados olharam ao redor. O silêncio proporcionava a todos um arrepio na espinha e abraçava-os com um sopro gelado, o da memória dorida e incompreendida pelos mais jovens. Estes eram os filhos das principais testemunhas das intrigas e mal entendidos do passado, mal digerido ainda, via-se agora nas inconstâncias dos assentos e das tosses secas e dos olhares evasivos e disfarçados, ali a balouçar, pairante no ar que se respirava pesado.
Os vossos filhos estão aí, o meu mal nasceu...
Joaquina deixou-o pousar, o silêncio, esse amigo de sempre que a fazia compreender a vida, as pessoas e o mundo que nunca despendera paciência a percebê-la.
O nosso filho, mas eles nunca souberam.
- Vá se lá perder um bom partido como o Julinho, ó Quininha, minha filha, és osso duro de roer!
- Prefiro Jôjô, senhora minha mãe. Mas não lho contaria. Só ele lhe chamava assim, lá na roça, nos tempos do Brasil, nas cumplicidades do serviço ao Senhor da terra que os levara para lá como criados de servir.
Que descanse em paz.
Viu o seu irmão e a cunhada deste, ou amiga, ou confidente, o povo sempre desconfiou, e sorriu-lhes, por dentro.
Foram dois anos no Brasil, fora da manha do povo. E doeu tanto tê-lo nos braços, podia lá ser, nascer a dormir, não era vermelho, era roxo e afinal estava morto. Nunca, cá dentro, nos aliviámos daquela dor. Ao interior da fazenda, não chegou a tempo o médico na mula. Eles nem sonham. Nunca se escreveu uma carta para vir de barco. Vejo que ainda te dói, Júlio.
Lembrou os pais já falecidos, sorriu-lhes, por dentro, olhando para as gravuras que davam vida à abóbada daquela igreja.
Viu os irmãos ainda vivos do Julinho, virou o rosto para encontrar o ar impaciente da Mercedes da venda que ansiava por uma faca e um alguidar. Sorriu, quase riu, mas viu o Ancião do Monte, nunca me contaste o teu verdadeiro nome, amigo, e sentiu saudades por saber que ele iria morrer em breve e suspirou tranquila. Era o seu momento. Eles nunca compreenderam nem nunca compreenderão.
E, então, seguindo um impaciente esgar atento do velhinho Padre, preparou-se para a leitura.
Ele nunca soube, Dona Joaquina jamais confessaria a sua vida a um homem de “Deus”.
Que sabe ele da vida terrena para julgar simples mortais? O perdão é presunção, quis gritar-lhe ela.
Engoliu em seco. Respirou fundo e começou:
Irmãos e irmãs:
Júlio
baixou a cabeça. A noiva olhou para ele
e, em seguida, para o Padre. Fitou depois a atenção nas flores do altar.
Aspirai com ardor aos dons espirituais
mais elevados.
O Padre
ergueu as mãos, inspirado. Dona Joaquina engoliu em seco e sentiu um aperto no
peito, diferente daquele que carregava desde a fazenda no Brasil, algures na
mocidade partilhada com Júlio. Que é isto?
Vou mostrar-vos um caminho de perfeição
que ultrapassa tudo:
A voz
pareceu-lhe querer falhar, mas ela seguiu, segura.
Ainda que eu fale as línguas dos Homens
e dos anjos,
se não tiver amor,
Sentem-se
sussurros na plateia. Alguém soluça lá ao fundo. Dona Dulce, sempre emotiva.
sou como o bronze que ressoa
ou como o címbalo que retine.
Ouve-se
o sino lá fora. O tempo passara célere e prolongado. Há que continuar. Um puxão no braço esquerdo fê-la gesticular de
forma estranha. Júlio reparou e apoquentou-se. A cor da face de Jôjô estava a
mudar.
Ainda que eu tenha o dom da profecia
e conheça todos os mistérios e toda a
ciência,
ainda que eu possua a plenitude da fé
a ponto de transportar montanhas,
Um
silêncio hesitante prendeu a atenção de todos e todas, agora sim, todos e todas
a olhar para Dona Joaquina. Júlio sentiu o ímpeto de se levantar. Ela não
estava bem, afinal. Mas Dona Joaquina acalmou os ânimos prosseguindo.
se não tiver amor nada sou.
Respirou
fundo mais uma vez. Tremeram-lhe as pernas. Parecia que se desequilibrava mas
ninguém se atreveu ao amparo. Júlio move-se da posição de nubente.
Ainda que distribua todos os meus bens
aos famintos
O Ancião
do Monte passou a língua pelos lábios. Apertou as mãos e soube. Sentiu um ardor
no peito, de um amigo em esperada despedida.
e entregue o meu corpo para ser
queimado,
A voz de
Joaquina esmorece. A plateia gesticula, agitada, e procura em vão o médico da
freguesia, este tinha ido acudir ao Jerónimo da Casa do Forno. Alguém faz sinal
a Joaquina para parar, mas Dona Joaquina prossegue.
se não tiver amor de nada me aproveita.
Respira
ofegante. De um só fôlego, lê as quatro frases que se seguem com medo de perder
a energia que sabe estar a esgotar-se. Estas
coisas sabem-se mesmo.
O amor é paciente, o amor é benigno;
não é invejoso, não é altivo nem
orgulhoso;
não é inconveniente, não procura o
próprio interesse;
não se irrita, não guarda ressentimento;
Coloca a
mão direita no peito. O Padre abrira a porta da sacristia. A aragem que baila
no altar não chega para a sua aflição. O povo agita-se, o Joaquim foi chamar o
médico mas nunca mais chegam. O tempo muda de velocidade na percepção do medo e
Dona Joaquina continua.
não se alegra com a injustiça, mas alegra-se
com a verdade;
tudo desculpa, tudo crê, tudo espera,
tudo suporta.
E
respira ofegante. Agarra-se ao livro que se abre à sua vertigem. Todos sustêm a
respiração. Abriu-se uma janela e mais uma porta mas não chega às almas que ali
estão num misto de curiosidade e vontade de resolução.
O amor não acaba nunca.
Júlio
espanta a surpresa de uma lágrima que rola pelo rosto ressequido de décadas na
lavoura e dourado pelos anos como Julinho brasileiro. O charme ficou lá
escondido, mas agora não passa de um velho
impotente que apenas tem olhos para a aflição de Joaquina. JôJô.
Levanta-se. A noiva jamais impediria tal gesto. E Dona Joaquina ofegante continua, olha para o noivo em movimento e para a noiva amargurada, fomos irmãs, minha amiga.
Levanta-se. A noiva jamais impediria tal gesto. E Dona Joaquina ofegante continua, olha para o noivo em movimento e para a noiva amargurada, fomos irmãs, minha amiga.
Agora permanecem estas três coisas:
a fé, a esperança e o amor;
mas a maior de todas é o amor. *
Não se ouviu a “Palavra do Senhor”.
Júlio aproximou-se de Joaquina, agora desmaiando nos seus braços e caindo no palanque. Sussura ela em última expiração, para ele apenas, que o microfone já não está ao seu alcance:
Júlio aproximou-se de Joaquina, agora desmaiando nos seus braços e caindo no palanque. Sussura ela em última expiração, para ele apenas, que o microfone já não está ao seu alcance:
Se não tiver amor...
E Júlio compreendeu e disse com ela:
Nada sou.
* Introdução livremente adaptada
do texto da
Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios frequentemente lida em cerimónias de sacramento de matrimónio.
Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios frequentemente lida em cerimónias de sacramento de matrimónio.
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