14/07/2014

Déjà-vu


Grupo composto de pessoas. Sem confusão. Só alguns precisaram de ficar de pé. Ela, ao pé da porta. Nós, recuados. Uma adolescente com o corpo a definir-se. Uns auscultadores que a levam na abstração do mundo.
Ele, encostado ao balcão de onde a vê. Quando ele entrou, a caminhar em passo de garça, parecia um tipo tranquilo, um miúdo quase... com aquele corpo franzino embora bem torneado, com aquele rosto de menino e cabelo sem cãs. Chegou perto, vimos. As rugas debaixo do olhar não mentiam a verdadeira idade, física pelo menos. Largou a mochila no chão e encostou-se. Não olhou ao redor, soube logo qual a presa que ia agarrar com aquele olhar aparentemente meigo, quase depressivo.
Depois nunca mais o viram. Fiquei só eu, ela, ele. O olhar magnético. Ele, a olhar, começou então a provocá-la. Só com o olhar. Se é possível? É.
Olhou por cima do ombro. Retirou todos os sinais, mexeu em todas as alças, despiu-a assim. Não afagou os cabelos, repuxou-os de um só gesto, firme. Com o olhar. Sem pudor. Não foi daqueles olhares que se têm de forma neutra, não foi um olhar que pedisse outro de volta. Jamais um sorriso. Impensável. Estava a dominar a presa, não a afagá-la. Foi daqueles olhares que trazem intenções mais que as platónicas, imaginativas, do acaso da imaginação. Não, ele não a largou. Devorou o seu cabelo. Devorou lentamente o rosto, ficou pousado no pescoço, torneou-o, amassou-o quase até à dor para o tragar, mas não por completo. Aí, finalmente, ela começou a sentir o olhar no arrepio da espinha que a fez enrolar os dedos dos pés, desconfortável, um pouco mais de tortura permitida que ainda não tinha chegado a sua hora de sair.  De nenhum de nós. Imóveis, afinal que podíamos fazer, pedir para parar de olhar? Sim, que aquele despir era uma violação.
Ele continuou, impassível, sem se mexer, nunca se mexeu a não ser pelo olhar, pelo olhar ele fez tudo para corromper aquele espaço de distância de segurança. Continuou pelas costas, até às pernas, reteve-se lá, subiu, continuou. Já não devorava apenas, ele tinha uma presa na mão, para ele não havia uma quase mulher, uma vontade ou alguma opinião, nem um sim, nem um consentimento, apenas rotura onde vencer, apenas poder. Chegou a hora, ela saiu mas do lugar ele continuou a dominá-la, de forma despudorada, perturbadora. Saiu do transe. Olhou para mim.
Frio.
 
 
Passaram-se meses. Passou por mim, continou a andar com a mesma mochila, o mesmo olhar e no banco da plataforma senti Frio. Se foi uma defesa para criar uma muralha de gelo e ele não me ver por que não viu? Espero nunca vir a saber.
Arrepio.

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