Por vezes deixa que nos distraiamos e leva-nos assim, esquecidos dela.
Sábia. Segura. Sempre lá.
Que nos obliteremos, lá estará sempre.
E não vemos. Passamos velozes. Apaixonados? Também. Por vezes.
Então, mais distraídos. Menos atentos.
Ela sempre lá.
Ali, na folha de Outono tardio chegado neste Inverno que te aconchega em lã. A folha que dança, e se musica e se deixa levar, solta. Ali. Sábia. Segura. Sempre lá.
E não vemos. Passamos velozes. Enraivecidos? Também. Por vezes.
Então, mais distraídos. Menos atentos.
Ela sempre lá.
Ali, na nuvem que se rasga por um Sol esventrante e derrotador, conquistador absoluto.
E não vemos. Passamos velozes. Apressados? Também. Por vezes.
Então, mais distraídos. Menos atentos.
Ela sempre lá.
Ali, no velho que come um rebuçado com sorriso de criança no banco do jardim na companhia dos pombos.
E não vemos. Passamos velozes. Envergonhados? Também. Por vezes.
Então, mais distraídos. Menos atentos.
Ela sempre lá.
Ali, no sorriso da transeunte que cumprimenta o motorista surpreendido.
E não vemos. Passamos velozes. Curvados? Também. Por vezes.
Então, mais distraídos. Menos atentos.
Ela sempre lá.
Ali, nas vagas que banham as cegonhas sedentas de diversão nas bordas do rio.
E não vemos. Passamos velozes. Surdos? Também. Por vezes.
Então, mais distraídos. Menos atentos.
Ela sempre lá.
Ali, na mão que te lancei quando estavas ausente do teu corpo, tão sedento de afagos e conchego.
E não vemos. Passamos velozes. Arrogantes? Também. Por vezes.
Então, mais distraídos. Menos atentos.
Ela sempre lá.
Ali, no sem-abrigo que quer só uma palavra e estende o ouvido com uma canção.
E não vemos. Passamos velozes. De olhos desviados? Também. Por vezes.
Então, mais distraídos. Menos atentos.
Ela sempre lá.
Ali, na criança que segue um rumo que não o da sua mãe e solta uma gargalhada. Pura, genuína, só por que sim.
E não vemos. Passamos velozes. Ignorantes? Também. Por vezes.
Então, mais distraídos. Menos atentos.
Ela sempre lá.
Ali, no pai que atravessa a estrada a correr e tenta não atropelar as pessoas do passeio por que aceitou o desafio da filha que corre no repto que lançou.
"não me apanhas!"
Ali, que qualquer homem se quer desafiado.
Ali, por que correr é sem pensar, nunca distraído. Correr, só por que sim!
E por vezes vemos. Passamos menos velozes. Ignorantes? Ainda. Por vezes.
Então, menos distraídos. Mais atentos.
Ela sempre cá.
Aqui, ela sempre cá.
12/12/2014
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