10/12/2024

De que cor é a liberdade?*

Quando a Menina Julieta chegou ao antigo Largo da Estação para vir servir os Silvas, trazia dentro do forro do casaco um papel manuscrito enrolado num duro caramelo de pinhão que um saltador lhe tinha dado às escondidas. Não o sabia ler ainda, mas sabia que era uma morada. Não vira o caramelo mas depressa imaginaria o seu sabor, e a sua origem, lá de longe, do outro lado... se soubesse o que era o paladar doce. Seria lá a morada? 

Não sabia ainda quem saltava o quê, mas guardou o papel como se fosse o pão que faltava na sua aldeia. 

Tranquilizou-se, e assegurou-se que calcorreando as ruas lá veria se os rabiscos do papel corresponderiam às placas que via penduradas nos umbrais; no entanto, aquela parecia não ter pendão que se avistasse. Terei sido enganada? Seria uma morada clandestina? 

Tinham-lhe dito que os Silvas eram conhecidos por outro apelido, se calhar é isso, havia trocas de nomes e moradas, e, com certeza, alguém a ajudaria. 

Naquele momento da chegada, a Menina Julieta conhecia-se apenas na alcofa de mão, na terra batida, na estação que nunca tinha visto na vida, no comboio que nunca a tinha transportado senão naquele dia. 

É dali que se recorda da primeira vez que sonhou, pois até ali, para ali, apenas a tinham mandado. Sonhou saber ler, sonhou poder finalmente compreender os riscos que o Senhor Aníbal da venda da aldeia fazia a lápis de carvão e para os quais olhava siderada, a custo da sua rabugice quando se sentia observado. 

Para primeiro sonho, não estava nada mal, melhor que medronho, rimou e riu-se mentalmente. Agora faço rimas? Era muita excitação para um só dia. 

O transbordo, a viagem, os lencinhos da mão na testa do menino que berrava no assento do lado, os odores de quem viaja e tem fome, o papel do caramelo às escondidas, nunca ter visto a cara dos Silvas senão pelo retrato falado e ditado pela sua tia avó que por si intercedeu junto do Senhor Abade lá da aldeia que por sua vez falou à sua antiga colega de escola que era amiga da sua falecida criada... Era grande a descoberta de saber que tinha sonhos, afinal não quereria transbordos suados, nem lencinhos bordados por si sujos com ranho de terceiros, nem favores devidos a homens em quem não confiava. 

Riu-se assim no largo da estação, como se fora o Diamantino da Torga a desafiar a Josefina Cantadeira quando estavam mais picados junto ao largo da Chã de Lousas. Ai, os lugares da aldeia tinham todos nomes, e ali, teriam também? 

De repente, apercebeu-se. Ali já não havia Diamantinos, nem Josefinas de quem se lembrasse. Caiu em si. O sonho deveria esperar. A gargalhada tinha sido genuína, mas logo tapou a boca com pudor, os pensamentos iam longe e nunca se sabe ao que se chega, cruzes, credo, canhoto. 

Diziam-lhe as velhas da fonte que quem conta um conto, acrescentava uma conta. Começava a perceber onde elas queriam chegar. Ainda não estava preparada para abrir esse capítulo, era melhor nem falar. Era melhor continuar no silêncio, sobretudo agora, que a sua histriónica gargalhada alçou orelhas curiosas que a voltaram a lembrar: convinha sentir se insegura, alerta, olho no ombro, convinha esperar o inimigo à espreita, existente ou não. 

A governanta dos Silvas chegou para a receber e orientar. Depressa a casa dos Silvas descobriu que o talento da Menina Julieta estava em animar a cozinha. 

A Menina Julieta não sabia que os Silvas tinham sido Tagarros, mas viu, anos mais tarde, que lá pela sua nova cozinha, leia-se a dos Silvas, havia livros com dizeres que ainda não reconhecia como vindos de nuestros hermanos, assinados em Valladolid. 

Passaram-se anos até à Menina Julieta conseguir ter coragem para fazer perguntas ao filho do patrão sobre os livros que havia na cozinha. 

Foi aprendendo a ver irmãzinhas do menino a serem orientadas pela tutora particular e às escondidas lá rabiscava números e letras nas costas do papel dos volumes de arroz que não deitava ao lume. Aprendeu a escrever, e percebeu que afinal ler era outro processo e aquelas letras dos livros da cozinha dos Silvas pareciam cantar noutra sinfonia. O menino explicou que era outra língua, ali dos nuestros hermanos, e eram receitas escritas em forma de conto. 

 

A ainda Menina Julieta lembrou-se das velhas da aldeia. Como se escreveria um conto? Não era mais fácil rimar? Rimar dá para cantar. Mas ela não ousava dizer isto ao menino. 

Obrigada, menino, andei a limpar o pó, menino, e um livro caiu-se-me ao chão aberto e não pude deixar de olhar, menino, o menino desculpe, o menino já lanchou, tem que ter energia para o seu primeiro emprego, foi difícil ver as meninas irem para fora estudar costura, eu sei menino, olhe o seu lanchinho, veja bem se deixei o livro no sítio, por favor não incomode a sua mãezinha. 

Como transformar um poema num conto? Ouviria mais tarde o desafio. A Menina Julieta já sabia agora o que era um conto. O que era um poema. E nos seus bolos e tartes, e tortas e pastéis ensinava a todos os que queria ensinar. Ora sinta este pão de ló. Não lhe lembra o colo da sua avó? Mas transformar? 

A Menina Julieta levava agora jeito de Professora. Começaram a convidá-la para ensinar a cozinha nas escolas da região, a levar visitas ao castelo com o palato cheio de ideias. 

  • - Menino João, sabe o que são ameias? 

  • - Menino Pedro, pare que servia aquela grade de ferro? 

  • - Menina Joaninha, alguma vez espreitou para as caves de Caxias?  - Menina Beatriz, alguma vez tacteou sem luz? Oh que magnífica cor que agora aclara as noites! 

  • A par dos bolos, dos repastos, dos convites, vinham as visitas levar recados para o exterior. Não os questionou, sentia que não deveria questionar o rumo livre das coisas. 

    Os recados seguiam escondidos nos queques, nos lanches de linguiça, nas broas de centeio. Em troca vinham mais livros, mais dicionários e a Menina Julieta já era chamada de Professora. 

    Tanta palavra nova aprendida, tanto saber que a arrebentava de inquietação. Era um peso alegre que despejava em cada encontro. 

    Só queria partilhar. 

    • - Menino Pedrinho, já cheirou petricor? 

      - Menino António Maria, sabe o que é um lenço da mão codificado? Alguma vez escreveu um postal? Chiu, não repita em voz alta. 

    A Menina Julieta apenas transbordava de ideias e pela primeira vez sonhava em voz alta, sem medo, enquanto batia claras em castelo, aprumava a caligrafia entre gemas com açúcar e tentava replicar a Marmelada lá dos Conventos de Odivelas de que ouvira falar. 

    A Professora da Quinta do Anjo convidara a fazer um passeio pelas grutas. Ficou apreensiva. 

    Grutas para onde? 

    Como transformar um poema num conto? Interrogou a Professora desafiando os alunos a olharam ao redor e a pensar numa história se aquela paisagem fosse um poema. 

    Cada um a seu ritmo, ora dos olhos ensonados, ora dos bolos da Menina Julieta, ora da imaginação perplexa, cada um a seu ritmo começou a declamar. 

    Um dia, os homens acordaram sem saber que podiam mexer as pálpebras. Foi a luz do sol que lhes disse: "Abre-as, estou aqui." 

    Antes de ouvir o sol, sentiram o seu calor, mas mal abriram as pálpebras, os seus olhos se queimaram, não tinham afinal autorização para ver. 

    Não era aquele o seu colo. 

     

    Então, os homens olharam para dentro e descobriram que podiam tentar ver pelas traseiras do seu corpo queimado. 

    Foi então que os poetas nasceram! A Menina Julieta emocionara-se e deixou escapar a conclusão, para si, agora óbvia. Estes, os poetas, esta outra espécie humana, nasciam das cinzas. 

     A sua mão reparou no vazio do forro do casaco; foi assim, ao erguer o olhar antes cabisbaixo, que reparamos num caminho calcado por terceiros, o papel do caramelo tinha seguido o seu caminho. Pudera lá ser! Havia um caminho com pegadas marcadas. 

    Mas já não há lama do pântano, nem sangue dos que gritaram ainda ontem. De quem eram aquelas pegadas? 

    As Meninas e Professoras Julietas nasceram, cresceram, trabalharam e morreram até que nascemos nós e pudemos viver. 

    Voltamos ao bolso, e tateamos. Nada. 

    Avançamos e o caminho parece levar nos com ele. Chegamos a uma casa. 

    Já tem telhado, já tem água na torneira, expõe e dispõe livros nas estantes esculpidas nas paredes com a lombada virada para se poder ver, esta casa oferece uma porta para a rua, e janelas para o horizonte. 

    Na e da casa pode decidir se entrar e sair. Pode-se Ver e ser visto. 

    Não lhe encontramos trinco. Não lhe encontramos trancas. Não lhe encontramos correntes. Não lhe encontramos cortinas. 

    Não lhe encontramos folhas queimadas. Não lhe encontramos segredos. 

    Olhamos para o colorido do teto e vemos que podemos ler o que a pintura transmite. Afinal a casa tem cheiro. Por vezes a canela com permissão de açúcar. 

    Afinal a casa tem nome. 

    O teto estava pintado com ele. Esta casa chama se liberdade. 

    *Conto escrito sob o repto da V Edição do Concurso Literário, sob o tema "De que cor é a liberdade" organizado pela Câmara Municipal de Palmela remetendo ao poema de Jorge de Sena.
    Os textos vencedores podem ser consultados aqui.


 

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