Porque
chegam respostas até nós que não pensávamos poder chegar.
Porque chegam respostas até nós
que não pensávamos poder chegar e porque foram geradas pelas nossas
provocações e ou comentários.
E por que essas e esses foram
apenas francamente ditas e francamente ditos e por que não se esperavam e por
que a humanidade prefere o véu opaco sobre a verdade e porque a verdade dói.
E
por que tem de ser mau doer-se?
Porque
somos espelhos de nós próprios. Porque somos espelhos de nós próprios uns
nos outros, a cada hora; por que quando nos olhamos olhamo-nos a nós mesmos e
(a) os próprios.
E
por que isso dói e por que há coisas que não se querem ver, como há
palavras que não se querem ouvir, não de forma premeditada mas ali: naquele
instante. No instante em que reagimos sabemos que há palavras que não queremos
ouvir, por que já as omitimos cá dentro, por que sabemos ser verdade.
Já
se passaram décadas, mas surgiu assim do nada (nunca é do nada, há sempre um
elo em cadeia de pensamentos que nos leva lá, mas porquê naquele
momento do nada? por que não noutro instante qualquer de um outro elo
qualquer?), surgiu do nada uma lembrança daqueles exercícios da praxe que se
pediam nas escolas de 1º, de 2º, de 3º ciclo.
Chegava
o valentino dia do correio chegar à sala de aula.
Humilhação
para alguns, vaidade para outros, contemplados ou não com uma carta todos
tinham de a escrever na aula de Língua Portuguesa.
Para
quem gostava de escrever e assumir a entidade de autor não havia melhor tarefa
por mais árduo ou embaraçante que fosse o tema, afinal o autor ali podia ser um
fingidor amante autorizado.
Foi
há décadas que foi escrita.
Foi há décadas que a professora leu as cartas em voz alta (ou teria seleccionado algumas?).
Fez décadas que uma colega chegou ao pé do autor e disse "a tua carta fez-me chorar".
Que será feito dela, a colega que chorou? Só décadas depois surge a percepção da força daquele desabafo, ali na aula, em frente a todos, que fantasmas a assolariam para se aliviar assim naquela ficção?
Assim
do nada, o Sol regressa, as pessoas caminham, o ruído ensurdece.
De
repente, o ritmo de feira apodera-se da cidade.
Palavras
cantadas em jeito brejeiro promovem protestos contra o governo, assim dançável,
num falso "kuduru", o protesto (e o estilo de
dança) perde(m) força e torna(m)-se vulgar(es).
Que
poder? Que palavra?
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