15/11/2013

Corte


 

Entra no barbeiro. Hoje os bancos cor de cera de gargalo estão cheios e os apoios todos reclinados nos pescoços dos clientes. Há quanto tempo não os viam assim?

-Sr. Ventura, Sr.  Jerónimo, como vão?

-Sempre a cortar! - respondeu o sempre enérgico Sr. Jerónimo com a costumada anuência do Sr. Ventura.

-E o senhor, como vai isso Sr. Bernardino? Barba ou cabelo hoje?
-Isto não vai pior, não senhor. (ignorando a segunda pergunta)

-Isso é que importa! (saudando-o com os braços abertos e tentando encaminhá-lo com o olhar para os vagos bancos de espera)

-Vejo que isto hoje está cheio. (olhando para a rua de soslaio)

-Tenha lá calma e sente-se aqui à espera. (apontando para o lugar)

-Eu volto noutra hora. (claramente descontente, saindo porta fora)

-Então? Nunca o vi tão impaciente, homem! Um homem que gosta tanto de conversar!
(gritando para a rua) -Venha cá , Sr. Bernardino!

-Esqueci-me de uma coisa, não levem a mal, vou a casa e já volto. (já abrindo a porta do prédio onde morava)

-Ó Jerónimo, que lhe deu hoje? Se não tinha dinheiro pagava depois. (preocupado, o Sr. Ventura)

-Não deve ser isso.
(remexem-se os clientes nos seus lugares, os mais ariscos apontam sugestões na pueril gafolha masculina)

-Há moura na costa é o que é! (logo se entreolharam, um esgar de boca aberta para uma risada, uma hesitação respeitosa de lembrança súbita)

-Ora essa, que novidade! Nunca mais lhe vi ninguém desde que a Generosa...

-Estava a brincar, vamos à barba que é preciso desfazer isto.

Volta o Sr. Bernardino. Em casa deixara os óculos e na mão trazia um envelope. Esperou pela sua vez. Não falou como habitualmente mas anuiu a mais umas risadas, a uns livres diretos, à vizinha do 4º andar, aos votos que não iria dar nas eleições seguintes, aos comprimidos que não comprou naquele mês para poder manter a dignidade da barba e cabelo.

Esperou pela sua vez. Remexeu-se na cadeira. Remexeu nos bolsos. No cabelo. No lugar até que chegou a sua vez. É atendido. Retoma a conversa de homens, sobre o homem e o Homem e os homenzinhos da vizinhança da tertúlia.

O Sr. Bernardino estava inquieto. O Jerónimo reparou que ele tinha tirado as alianças do dedo (a dele e a da falecida que teimava em usar mesmo que apertada).

Hoje não ri como habitualmente e o Sr. Bernardino apesar de estar irrequieto na cadeira tem um olhar sereno, como quando se diz adeus antes de viajar e se fica a olhar para o que fica mas a ver o que virá no limbo da viagem que a mente faz sozinha e então o Jerónimo olha pelo espelho.


Olha, está mesmo cansado. Adormeceu!

-Ó Sr. Bernardino! Então veio dormir para aqui? Endireite-se lá para eu lhe mostrar o corte!
-Ainda ia cortar mais do que devo! Vá lá! Acorde lá que eu levo-o a casa!

Não reage.

Entreolham-se todos. Aproximam-se. Tocam-lhe. Não acorda. Não há sinais vitais.

Da mão tinha caído o envelope com uma nota e com as alianças tilintando no mosaico batido.

Jerónimo, toalha ao ombro e navalha na mão, vê então.

-Obrigado meus amigos, queria ir composto.  
-Foi a despedida.

 

 

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