Entra no barbeiro. Hoje os bancos cor de cera de gargalo
estão cheios e os apoios todos reclinados nos pescoços dos clientes. Há quanto tempo não os viam assim?
-Sr. Ventura, Sr. Jerónimo, como vão?
-Sempre a cortar! -
respondeu o sempre enérgico Sr. Jerónimo com a costumada anuência do Sr.
Ventura.
-E o senhor, como vai
isso Sr. Bernardino? Barba ou cabelo hoje?
-Isto não vai pior, não senhor. (ignorando a segunda pergunta)
-Isto não vai pior, não senhor. (ignorando a segunda pergunta)
-Isso é que importa!
(saudando-o com os braços abertos e tentando encaminhá-lo com o olhar para os vagos
bancos de espera)
-Vejo que isto hoje
está cheio. (olhando para a rua de soslaio)
-Tenha lá calma e
sente-se aqui à espera. (apontando para o lugar)
-Eu volto noutra hora.
(claramente descontente, saindo porta fora)
-Então? Nunca o vi tão
impaciente, homem! Um homem que gosta tanto de conversar!
(gritando para a rua) -Venha cá , Sr. Bernardino!
(gritando para a rua) -Venha cá , Sr. Bernardino!
-Esqueci-me de uma
coisa, não levem a mal, vou a casa e já volto. (já abrindo a porta do
prédio onde morava)
-Ó Jerónimo, que lhe deu hoje? Se não tinha dinheiro pagava depois. (preocupado, o Sr. Ventura)
-Ó Jerónimo, que lhe deu hoje? Se não tinha dinheiro pagava depois. (preocupado, o Sr. Ventura)
-Não deve ser isso.
(remexem-se os clientes nos seus lugares, os mais ariscos apontam sugestões na pueril gafolha masculina)
(remexem-se os clientes nos seus lugares, os mais ariscos apontam sugestões na pueril gafolha masculina)
-Há moura na costa é o
que é! (logo se entreolharam, um esgar de boca aberta para uma risada, uma
hesitação respeitosa de lembrança súbita)
-Ora essa, que
novidade! Nunca mais lhe vi ninguém desde que a Generosa...
-Estava a brincar,
vamos à barba que é preciso desfazer isto.
Volta o Sr. Bernardino. Em casa deixara os óculos e na mão
trazia um envelope. Esperou pela sua vez. Não falou como habitualmente mas
anuiu a mais umas risadas, a uns livres diretos, à vizinha do 4º andar, aos
votos que não iria dar nas eleições seguintes, aos comprimidos que não comprou
naquele mês para poder manter a dignidade da barba e cabelo.
Esperou pela sua vez. Remexeu-se na cadeira. Remexeu nos
bolsos. No cabelo. No lugar até que chegou a sua vez. É atendido. Retoma a
conversa de homens, sobre o homem e o Homem e os homenzinhos da vizinhança da
tertúlia.
O Sr. Bernardino estava inquieto. O Jerónimo reparou que ele
tinha tirado as alianças do dedo (a dele e a da falecida que teimava em usar
mesmo que apertada).
Hoje não ri como habitualmente e o Sr. Bernardino apesar de
estar irrequieto na cadeira tem um olhar sereno, como quando se diz adeus antes
de viajar e se fica a olhar para o que fica mas a ver o que virá no limbo da
viagem que a mente faz sozinha e então o Jerónimo olha pelo espelho.
Olha, está mesmo cansado. Adormeceu!
-Ó Sr. Bernardino!
Então veio dormir para aqui? Endireite-se lá para eu lhe mostrar o corte!
-Ainda ia cortar mais do que devo! Vá lá! Acorde lá que eu levo-o a casa!
-Ainda ia cortar mais do que devo! Vá lá! Acorde lá que eu levo-o a casa!
Não reage.
Entreolham-se todos. Aproximam-se. Tocam-lhe. Não acorda.
Não há sinais vitais.
Da mão tinha caído o envelope com uma nota e com as alianças
tilintando no mosaico batido.
Jerónimo, toalha ao ombro e navalha na mão, vê então.
-Obrigado meus amigos,
queria ir composto.
-Foi a despedida.
-Foi a despedida.
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