Ou do encanto do descontentamento...
O homem que entra no autocarro com uma brutal hemorragia, com o pulso enrolado num pano de cozinha, com o sangue despistando trilhos incertos. Com golpes na cabeça.
O motorista que lembra que vai sujar o autocarro e o aconselha a sair dali.
A senhora indignada na paragem a gritar que mundo é aquele que recusa transporte a um homem que precisa de cuidados médicos urgentes.
O homem que explica à senhora que o motorista não deixou que se sujasse o autocarro. E que corre para o táxi mais próximo. E que explica que ia picar a veia mas ela rebentou. E a senhora que não ouviu a explicação e continua indignada. E a outra mulher que se lembra de já o ter visto numa outra situação semelhante, dessa feita no metro a correr com outro pano, sobre o mesmo pulso, dançando outros sangues.
E do homem que acha que ia incomodar os outros passageiros à senhora indignada que repete que mundo era aquele. E o táxi que passou já.
As pessoas que lembram que há ali um hospital ao lado. O homem que explica que o motorista mandou ir apanhar um táxi.
As pessoas que gritam que se tivesse chamado uma ambulância.
A senhora que continua indignada.
E o táxi já passou há muito.
As pessoas que repararam que o homem estava sob o efeito de drogas.
As pessoas que lembram que o homem admitiu ter rebentado a veia quando a quis picar.
A senhora que não compreende.
As pessoas que lembram que também a ambulância se paga. E o táxi. E o hospital. E o homem que diz que aquele outro homem não pagará.
A senhora que refila com a idosa trôpega que deveria ir sentada.
A senhora que refila por que o lugar reservado é para deficientes e grávidas e acompanhantes de crianças ao colo (nenhuma das categorias presente) e que também é idosa e prefere evitar conflitos pedindo o lugar.
A outra senhora que relembra que claramente a idosa precisa de ir sentada para não cair.
A idosa que não se sentou no lugar reservado que ainda não pedir que nem se apercebe da discussão enquanto se tenta equilibrar.
O senhor que fala do absurdo que é estar ali em pé,
Dos passos,
Dos coelhos,
Do governo que foi seu patrão,
Que é mau pagador,
Que é devedor.
E a outra senhora que vê ali alguém que a compreende e entra então por portas na conversa, por que a família desse Portas devia ser toda recambiada num pandur.
E o senhor lembra outras lutas. O senhor que mais tarde diz que eles vão pagar caro, que será pelas nossas mãos mas chegará a hora.
E a senhora alinha também e venham mais cinco e o Álvaro Cunhal a sair da esquina da Praça do Chile pela memória do senhor.
E olha: é a paragem, chegámos quase todos e ela sai. O senhor compreendeu-a e ela despede-se de todos os passageiros:
“Até amanhã, camaradas” que ele entenderia, disse ela.
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Ler, que prazer, poder ler por ordem e não o fazer. Inverter é tudo. Como numa revista da última à primeira página, nem sempre nada.
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