21/03/2015

Adeus, adeus, adeus



A mendiga romena estendia as saias da sua prece nas escadas afastadas da entrada principal do centro comercial. O sol tornava o gemido mais adormecido, mas passei com as empadas e o resto foi espontâneo. Há coisas que não se explicam. O gesto de uma mão estendida. Uma fome acalmada. A mulher sorriu desdentada de alívio e agradecimento. Parece ter ficado surpreendida. Queria agradecer mas não sabia as palavras, uniu as mãos em prece, estendeu-se mais uma empada. Queria dizer obrigada mas não sabia, lembrou-se então de um termo na língua que eu falava mas ela não e desfiou a prece com as mãos unidas "Adeus, adeus, adeus". A sorrir, a comer, tão simples felicidade na tristeza de umas escadas afastadas das pessoas que podem pagar para comer no centro comercial.
Adeus por um obrigado.
Adeus, adeus, adeus.
Adeus, que repetimos todo o dia.
Adeus, que repetimos todos os dias, sem palavras, com gestos e omissões.
Com o sorriso que não damos, com o olhar que não pousamos.
Com a esmola que não mudamos para partilha.
Com a esmola que nem esmola permitimos ser.
Com as portas abertas por onde não entramos a vasculhar um odor que incomode.
Com as portas fechadas que não nos esforçamos por abrir.
Com as campainhas que deixámos de tocar.
Com as mãos que deixámos de dar.
Adeus, adeus, adeus.
Adeus, que repetimos todo o dia.
Com as ruas que não limpamos depois de as ter sujado.
Com as ruas que sujamos sem as limpar depois.
Com os afagos que não damos no pudor do julgamento.
Com o abraço que cortamos com medo do que possa parecer.
Com os sons que omitimos por que parece mal.
Com o coçar da pele que se faz às escondidas.
Com o obliterar de nós mesmos que permitimos na rotina.
Com a pedra no sapato que não descalçamos no meio da rua.
Com o cinto apertado que só se desliza no calor da não luz.
Com as chaves que tilintam apenas na pressa de chegar.
Adeus, adeus, adeus.
Adeus, adeus, adeus.
Adeus, que repetimos todo o dia.
Por vezes paramos.
Não é só a romena, seja ela de que parte do mundo for, que nos faz parar.
Nem só o passarinho que parou no jardim à espera das passas que tens na mão.
Nem só um sorriso galã de um desconhecido que te reconheceu aquilo que não desvendas logo.
Por vezes paramos à porta do prédio devoluto.
No vazio de tanto que por ali se terá vivido.
Nas grades ou janelas da portada maior há uma corrente fechada a cadeado.
Alguém disse adeus àquele lugar.
Persiste-me sempre a dúvida...
Quem guarda as chaves dos cadeados das correntes das portas dos prédios devolutos que nos dizem adeus quando por eles passamos?

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