Lê-me devagar.
- Disse-lhe ela, com a languidez de quem se quer desfrutado com vagar.
Lê-me devagar.
- Disse-lhe ela, com marcas de tinta esborratada.
Lê-me devagar.
- Disse-lhe ela, com traços de grafite, e carícias de borracha, e desvios de borrão, e manchas de café turco, e ósculos arranhados de mácula, e suores nas dobras das mãos , e chuva da rua, e cheiro de comida, e sobras de batom roubado a um beijo, e saliva deixada num selo, e toda a vida de uma folha de papel.
Lê-me devagar.
- Sussurrou-lhe ela, a desfazer-se num ápice.
Mas nada se leu.
Nada se escreveu.
Quando ele a descobriu sem envelope, tentou lê-la pela primeira vez.
Era tarde.
Estava rasgada.
11/07/2021
Lê-me devagar.
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